76 mortos na Noruega vítimas de um ataque terrorista - afirmava o noticiário quando Juan sintonizou o rádio. O homem, loiro e com um par de olhos claros, reafirmava a extrema direita em sangue - apontava a comunicadora bem vestida, com olhos vazios que emanavam um não-sei-quê da tv posicionada sobre a nova poltrona sem estofado, alocada ao canto da estreita sala - "Oslo, a capital, está em choque, as ruas adquiriram outro movimento e os concidadãos temem uns aos outros", conclui um comentador com ares aristocráticos, de um jornalismo que já perdeu força, com o passar do tempo e, talvez, devido à ausência de revoluções como as de 68, as citadas com a boca cheia por históriadores que ainda acreditam na mudança e com a evasão dos sonhos humanitários, daqueles que já não mais sentem o mundo.
Juan folheia o jornal. A janela está aberta. Diante dele, alguma América Latina se desmancha em homens circulando na longa avenida, ônibus, carros modernos, mulheres com crianças no colo, crianças malabaristas, o trânsito pouco celestial, as árvores opacas. O jornal registra: mais uma nova oscilação no dólar - uma queda, uma alta. Juan está cansado. O sistema o faz sintetizar um pensamento indesejável "o que será do combustível? o que será das fontes energéticas? meu salário será?". Juan é um homem magro, homem-fast-food e olheiras densas, os comerciais midiáticos gostariam de sua impecável imagem, uma vez que ele é aquilo que o Capital (com letra maiúscula: nome-próprio-vida-própria) denomina: fracasso. E Juan, um pobre diabo talvez, concorda. Mas, nós sabemos (nós quem, perguta você. e eu respondo: a classe dos que observam e registram) ambos nada sabem sobre o fracasso. Juan e Capital, oh, mas que bela condição recíproca.
O fracasso emana da barbárie. A Barbárie, personagem mãe, Rainha das Trevas que eclodem em luz, é a dama do século XXI, aquele que diziam no ano 2000: será o das novas possibilidades. Dos sonhos se materializando. Da vida aceita em plenitude, quais sejam suas cores e faculdades políticas - Ideologias. A Barbárie reconforta-se com 76 mortos, dá sustento ao extremismo do horror e é capaz de se renovar: converte a perseguição aos judeus em eliminação da cultura mulçumana, confere vestimenta de guerra à criança, aliena e massifica o trabalho humano.
E aí, as lamentações permanecem suspensas como areia quando o vento carrega de um local para outro. Juan e o Capital não entendem o que é a barbárie - substantivo impróprio. Apenas se submetem à outra. Repito: se condicionam. O capital não cessará, Juan não sucumbirá. E nós registradores devemos trazer as palavras à tona, denunciar os seres, eliminá-los do existencialismo do século do Vazio e da Fome. Não como um manifesto ou um discurso ético, nacionalista, humanitário. Trata-se da consciência a ser desperta. De Juan, finalmente, compreender a personagem fantástica que o cerca.
Sem mais,
Por Isabela R.
(queria usar as palavras corretas para finalizar e mesmo tecer esse texto, mas enfim...)





