Home Data de criação : 09/10/10 Última atualização : 12/01/08 14:58 / 47 Artigos publicados

Século dos fogos, Juan e o Capital - um texto sobre nós  (os tempos) escrito em quarta 27 julho 2011 18:31

Blog de paralelos :PARALELOS, Século dos fogos, Juan e o Capital - um texto sobre nós

76 mortos na Noruega vítimas de um ataque terrorista - afirmava o noticiário quando Juan sintonizou o rádio. O homem, loiro e com um par de olhos claros, reafirmava a extrema direita em sangue - apontava a comunicadora bem vestida, com olhos vazios que emanavam um não-sei-quê da tv posicionada sobre a nova poltrona sem estofado, alocada ao canto da estreita sala - "Oslo, a capital, está em choque, as ruas adquiriram outro movimento e os concidadãos temem uns aos outros", conclui um comentador com ares aristocráticos, de um jornalismo que já perdeu força, com o passar do tempo e, talvez, devido à ausência de revoluções como as de 68, as citadas com a boca cheia por históriadores que ainda acreditam na mudança e com a evasão dos sonhos humanitários, daqueles que já não mais sentem o mundo.

Juan folheia o jornal. A janela está aberta. Diante dele, alguma América Latina se desmancha em homens circulando na longa avenida, ônibus, carros modernos, mulheres com crianças no colo, crianças malabaristas, o trânsito pouco celestial, as árvores opacas. O jornal registra: mais uma nova oscilação no dólar - uma queda, uma alta. Juan está cansado. O sistema o faz sintetizar um pensamento indesejável "o que será do combustível? o que será das fontes energéticas? meu salário será?". Juan é um homem magro, homem-fast-food e olheiras densas, os comerciais midiáticos gostariam de sua impecável imagem, uma vez que ele é aquilo que o Capital (com letra maiúscula: nome-próprio-vida-própria) denomina: fracasso. E Juan, um pobre diabo talvez, concorda. Mas, nós sabemos (nós quem, perguta você. e eu respondo: a classe dos que observam e registram) ambos nada sabem sobre o fracasso. Juan e Capital, oh, mas que bela condição recíproca.

O fracasso emana da barbárie. A Barbárie, personagem mãe, Rainha das Trevas que eclodem em luz, é a dama do século XXI, aquele que diziam no ano 2000: será o das novas possibilidades. Dos sonhos se materializando. Da vida aceita em plenitude, quais sejam suas cores e faculdades políticas - Ideologias. A Barbárie reconforta-se com 76 mortos, dá sustento ao extremismo do horror e é capaz de se renovar: converte a perseguição aos judeus em eliminação da cultura mulçumana, confere vestimenta de guerra à criança, aliena e massifica o trabalho humano.

E aí, as lamentações permanecem suspensas como areia quando o vento carrega de um local para outro. Juan e o Capital não entendem o que é a barbárie - substantivo impróprio. Apenas se submetem à outra. Repito: se condicionam. O capital não cessará, Juan não sucumbirá. E nós registradores devemos trazer as palavras à tona, denunciar os seres, eliminá-los do existencialismo do século do Vazio e da Fome. Não como um manifesto ou um discurso ético, nacionalista, humanitário. Trata-se da consciência a ser desperta. De Juan, finalmente, compreender a personagem fantástica que o cerca.

Sem mais,

Por Isabela R.

(queria usar as palavras corretas para finalizar e mesmo tecer esse texto, mas enfim...)

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gemeinsam, o ululante  (os tempos) escrito em domingo 08 janeiro 2012 11:58

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Existe por vezes nas expressões vulgares uma imagem do que passa no fundo do coração de todos os homens. Sensus communis significa, entre os romanos, não só senso comum mas também humanidade, sensibilidade.

(Dicionário Filosófico, Voltaire, "Senso Comum")

 

Mulher, estou tentando dissipar isto com a escrita. Mas ela já se esgotou. As palavras: as mesmas. Os refrãos, se intercalando, variando, não o sendo. Os versos (de outros!) industrialmente citados. O açúcar, ao desespero, clareando o matte. O sal, em demasia, salpica a crua carne. Escovo os dentes – e os cabelos – com o pasmo azeite para que este brilho seja tão infuso e cálido – quanto o é o coração (que palpipatita) – pela ausência da polidez, desta dentina já corroída. Qual coração? Escrevendo, estive por estar, uma oração n’um papel sírio, desses de pão ave maria bendita sois vós dentre as mulheres para dissipar aquilo com a escrita. Aquilo que a escritura mesma não diz: bendito o fruto de vosso ventre, Maria. E depois, e agora, e antes. Eu dizia: "e agora José" que teu filho nasceu? Há o manto a ser tido (há de se tear!), o leite (há de se arranjar! Cabras, prenhes e prendadas) e deve-se encontrar a decadente Estrela para a data dos três homenzinhos, que são a bonança a chegar. Cegar. A. a. a. a. Antes do seis de janeiro! Adiemos a festa. Adiemos o ouro. A mirra. Preparemos os turíbulos! E depois, de espalhar a boa nova, a mãe pobrinha de mão calosa e o pai pobrinho, vestido da secura imanente, seguirão este seu caminho: - sentirás o filho morrer próximo ao Sol, em areia, em brevidade intumescida, com as unhas sujas. E você, escreve pra que mesmo? Me pega pelo colarinho (e sufoca-me) a Escrita. Para dissipar? O estranhamento, é? O entrançamento? Este sacramento todo? Ora vá! Invente-me. Aperta-me, ela. "Ou desestrutures a outra". Cospe-me, ela. A outra? "O sabes, a epopéia! A tra-di-ção. O seu senso. Bem o sabes, bem o sabes!" HÁ- HÁ. Tenha mais religião. Escreves com pavor. Nesta tua manobra com os dedos, em afundar a ponta da pena ao tinteiro, não há o pérfido essencial – o inteligível. Esse texto, no qual me usas, é jocoso em demasia. Consulta o dicionário. Dispense toda essa pompa sintática, a cavalaria, afinal, enfim mesmo, mesmo travada à celulose indigerível, sou testemunho e não um moinho de vento. Não me despeje a tintura; pára a Dissipação. Eu vos ordeno: no modo imperativo das gaulesas gramáticas: se for despir-me, inventa-me antes, faças-me deslize, sagrada: chave. Faças-me víscera e pulso, Mädchen.

isabela r.

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da outridade  (literaturisse) escrito em domingo 08 janeiro 2012 11:50

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Capítulo 22, Rayuela, vol. I

"No fundo, poderíamos ser como na superfície", pensou Oliveira, "mas teríamos que viver de outra maneira. E o que quer dizer viver de outra maneira ? Talvez viver absurdamente para acabar com o absurdo, sair de si mesmo com tal violência que o salto acabasse nos braços do outro. Sim, talvez o amor, mas o otherness dura para nós o que dura uma mulher, e além disso só o que toca a essa mulher. No fundo, não há otherness, apenas o agradável togetherness. É certo que isso já é alguma coisa..." Amor, cerimônia ontologizante, doadora de ser. E por isso lhe ocorria agora aquilo que na verdade lhe deveria ter ocorrido logo no início: sem se possuir a si mesmo, jamais poderia possuir a outridade. E, afinal, quem é que se possuía de verdade? Quem é que tinha a perfeita consciência de si mesmo, da solidão absoluta que significa nem querer contar com a própria companhia, que significa ter de entrar num cinema ou num bordel, ou em casa de amigos ou numa profissão absorvente ou no matrimônio para estar pelo menos só-entre-os-demais ? Assim, paradoxalmente, o cúmulo de solidão conduzia ao cúmulo do gregarismo, à grande solidão das companhias alheias, ao homem só na sala de espelhos e dos ecos. Todavia, pessoas como ele e tantas outras, que se aceitavam a si mesmas (ou que se repeliam, mas conhecendo-se de perto), entravam sempre no pior paradoxo, estar talvez à beira da outridade e não poder alcançá-la. A verdadeira outridade feita de delicados contatos, de maravilhosos ajustes com o mundo, não podia ser cumprida por um só lado: a mão estendida deveria receber outra mão, vinda de fora, vinda do outro.

(Júlio Cortázar)

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l'amour brève: o poema longo  (dos que povoam caramélias) escrito em terça 06 dezembro 2011 19:15

Não é Antônio, nem Américo

Você é bem querer que

deveras treme

Indulgente - ascendente em

meu rotineiro asco pelo

cheiro do almoço do

mau hálito matinal, seu

hábito que depende da inspiração

da roda que o envolve

sufoca esse tão fino pescoço

Você, que é anjo caído

não sabes o quanto cabe do

céu do inferno

em teus olhos tristes

serenos. Nesses teus olhos

que tragam o mundo

mastigam meus cabelos e

em pêlos rebuliçados

estranham o quão deserto

é o campo daqueles que arquejam

Não és tu como o Américo:

velho, trôpego, negro

vida queimada, pneus, borrachas

ganchos ternos e tenros

infinita poesia do 1920 esquecido

em moderna Arte

esmaecido em sua vanguarda futura

ora! ora! daquela libertinagem estranha

e conservada em pote de vidro, mas

és também o infimo distinto de Antônio

O Antônio de mangas da camisa azul

arregaçadas, daquela vida amassada

dos tardios anos 1959

o Antônio anti-blues, anti-maçada, antinta pingada

ah! Tu és o Antônio observado da luneta!

(não és antítese: dado que não há tese premepoetada)

O Antônio Europa, Paris, Holanda, vilarejos italianos

cafés russos, cafés caros, espumas

espumas alucinantes - tortas e redondas -

e carros abandonados pela longa

estrada

O Antônio que é desejo confesso.

Mas tu - antes de aí estar alocado - na

segunda pessoa do singular deste

caso reto sagrado, tu és

άγγελος - anjo Ático

contração reprimida de vogais

trêmula consoante embelezada que som

atribui ao seu "ÂN".

És samba segunda pessoa, és pessoa primeira

dentre os ventos carregados

les Amériques latine, poèmes sacrément

és bem-dito em mim por

seu movimento

fusão tal - do espaço e tempo - é que ESTÁ.

Não interrompas, mais, a fala dentre teus

oleosos cabelos ondulados e olhos

superlativo - fugidios feito a literaturisse que

nos esquece(mo-nos) há

ainda o beijo

o abraço e qualquer inconfesso vazio.

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greve: homemovimento  (os tempos) escrito em quinta 03 novembro 2011 08:40

Blog de paralelos :PARALELOS, greve: homemovimento

Mal entende os pormenores dos movimentos de massa. Mal conhece a importância e discrepância da noção dos movimentos de massa. Mal, mal o quê?

Juan é desses homens intocáveis: tocados por uma inércia que lhes é própria, imersos numa mecânica que de modo algum é a das insurreições e engajamentos. Não há pudor. Não há necessidade. Sequer não há o minímo de ânsia pela transformação. Estático, ele deixa-se guiar pela tia gorda que o sustenta, pelo avô militar que o despreza, e pelo pai empresário que desconhece a desgraça cotidiana do 'ser em si', e no entanto, nunca 'estar em si'.

O que rouba o sistema de produção capitalista de Juan? Os cabelos, as unhas, os pêlos do braço, o mau hálito, o mau hábito, o mau humor. O sistema arregaça-lhe as entranhas e o bota sambar o mambo sem nota.

O que presenteia o sistema ao (des)humano Juan? Os créditos de vida, a infalibilidade dos jogos, a necessidade de renvação, a crise existencial, os pulmões desgastados, a ideologia planificada, e a inércia. Inércia do pão da manhã, do café noir que rendeu-lhe a gastrite no mês passado, e do frango empanado nas indústrias Saúde de Ponta Alimentos.

Juan é universitário: estudante das ciências humanas, que, com o passar do tempo, de humanas pouco restou. Juan não entende a greve. Não entende a concepção marxista do valor. Não entende a natureza do próprio entender o movimento: aderir, deliberar, questionar, desejar. E pra que serve ele, afinal, no meio da massa, da multidão furiosa de vinte outros estudantes escancarando a fala "estamos aqui, queremos mudanças, no trabalho, na educação, nos planos de estudo, nos planos de gestão", se nem mesmo desloca os lábios e emite sons?

No sistema, alguma utilidade deve ter o homem - esse moço de olhos fundos e cabelos desajeitados - deve ter para a máquina funcionar. Para o Estado insitituir seu estado. Para que o bom selvagem, daquele francês, pensador estudado, Jean-Jacques, não se manifeste nem mais em teoria. No entanto, pensando bem, ah! para a Instituição a teoria é o que vale: que a ação resida ali, empobreça de espírito ali, adquira pó, pó e não aspire a nada: nem mesmo ao do da palavra que a descreve, ao conceito que a delimita. E nada mais.

Juan pensa. Juan adere. É a santa práxis de todo dia que o impulsiona. Nos sistemas filosóficos, na sua vida sistemadizada, no seu comportamento, que, embora estranho aos olhos revolucionários, é reacionário e intransigente.

Ele move-se pela reação. A reação é o meio. E a revolução ? E os termos ? E o trabalho enquanto substância de estudo ? E? Estão todos aí e aqui, numa greve que diz respeito não somente à mudança dos paradigmas, a luta pela isonomia: numa greve que diz respeito às palavras escritas.

Juan escreve e sua voz esmaecida habita aí: em fonemas sangrando, quebrando, construindo o eco.

sem mais,

Isabela Rossi

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